segunda-feira, 23 de junho de 2008

Homem do século XXI.


Levanto-me de manhã, contrariado. Mais um dia igual a tantos outros, mais um elo na interminável cadeia de dias cinzentos. Quadros esgatanhados por um pintor medíocre...Tintas mal misturadas, tela de má qualidade, a moldura é feita de madeira rasca, temperada por anos de caruncho. Cheira a verniz e a mofo. Fico enjoado.

Os dias repetem-se tão previsíveis que se tornam deprimentes. Seria quase possível percorrê-los de olhos fechados, sem tropeçar, sem caír sería capaz de chegar à meta...Mas que meta?

O fim de um dia é o começo de um outro. Fotocópia monocromática de uma sucessão de horas mergulhado em cegueira, egoísmo, cinismo, materialismo. Que meta...

Noites passadas em horas de reflexão, ideais alimentados por sonhos emocionais. Num momento caminho de cabeça baixa, no seguinte sou idealista, super-herói do meu mundo privado, santo, capaz de mudar o mundo.

Mudá-lo é possível, ohh sim! Só mais um pouco, estou quase lá, não é nada de inalcançável...De repente, acordo. Era um sonho. Estou na cama a suar profusamente.

Tenho a boca seca. Levanto-me, bebo um copo de água mas continuo com sede. Preparo-me para mais um dia mergulhado no quadro cinzento...mais um elo na interminável cadeia de futilidade.

Começo mais um episódio da novela...Caminho de cabeça baixa. Ando mas não sei para onde. Não vejo o arco-íris que se anuncia ao longe. Como posso vê-lo se não olho para o céu?

Passo por um pedinte, olho-o de lado, finjo que não o vejo...Será que me está a enganar? Cuidadosamente toco a moeda que tenho no bolso...dou duas, três voltas...Sinto-a, ainda lá está, segura...é minha. Esboço um sorriso e sigo em frente orgulhoso de não ter sido enganado.

As horas prosseguem, temperadas com infidável dedicação ao trabalho. Coço-me com a mão esquerda ou com a direita? Esgravato deselegantemente com a que tiver as unhas mais compridas...Se ao menos conseguir coçar sem que o chefe veja...Ele olha...sorrio, dou dois golpes de teclado, faço expressão séria...Resolvi mais um problema. Mais um dia de trabalho produtivo.

Sigo agora para casa da minha namorada...Depressa...Tenho de tirar o baton da outra...deixei o alpendre dela à pressa...Não, a "Maria" não pode saber. Cozinha e costura as meias como ninguém. Está lá quando me dá o nervoso miudinho. Que Amor fantástico o nosso, Amor de pratos cheios até transbordar, Amor de meias cosidas e paciência infinita. Amo-te "Maria"...A ti e a mais 35.

Ela abre-me a porta, sorri para mim. Cheiro a perfume barato mas finge que não o sente. Piedosamente, minto. Trabalhei até tarde, fiquei preso no trânsito, vi um OVNI...Tenho urgência, "Maria"preciso de entrar. Abre a porta, abre a porta. Tenho fome e as minhas meias estão rotas mas dou-te um beijo, prometo. Sei que me amas, sei que acreditas em mim.

Sou um homem do século XXI, tenho de ir dormir mais um pouco. Vou sonhar que posso mudar o mundo, que sou super-herói, que sou santo...

3 comentários:

Liliana Marta disse...

Vida atarefada! ufa!!!
Gostei! Continua que ainda vais publicar um livro do homem do século XXI

AbJeu disse...

Pois...tens que usar côr,esquece lá as fotocópias monocromáticas :)
Se quiseres, sei quem te pode aconselhar uns bons equipamentos...ou não!

Beijo
Sandra

Anónimo disse...

A Maria é só namorada mas parece que está casada há anos... para quando uma mulher do século XXI? ;)

Vais publicar só textos recentes ou também os mais antigos? Ideias não te faltam, por isso este blog tem futuro, certo?

Beijinhos desta amiga desaparecida (mas não muito).